Colunas Edição de sexta-feira, 12 de março de 2010
Opinião
Falta de acordo
A inclusão de cosméticos, óculos de sol, fones de ouvido e a exclusão de insumos industriais, máquinas e equipamentos de alta tecnologia na lista de 102 produtos dos Estados Unidos que terão as tarifas de importação aumentadas dão bem uma ideia do que representa o ato de retaliação do Brasil às práticas protecionistas de Washington. É, na verdade, um constrangimento que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez o que pode para evitar, mas que não contou com o interesse da Casa Branca. A autorização para retaliar os EUA em até US$ 830 milhões por ano foi dada em agosto pela Organização Mundial do Comércio (OMC), depois de o Brasil ter vencido uma longa disputa no âmbito da entidade. Em questão, estavam os subsídios e diversas medidas daquele país para proteger os produtores locais de algodão da concorrência com os de outros países. Vencidos e notificados a cessarem o protecionismo ao algodão, os norte-americanos não deram a menor atenção. A OMC foi obrigada a partir para a etapa de sanções, o que resultou na autorização para que o país reclamante aplicasse retaliações comerciais.
O governo brasileiro emitiu sinais de que estava aberto ao diálogo e disposto a um acordo compensador para a manutenção dos subsídios ao algodão. Afinal, nos EUA, como em qualquer democracia, a pressão dos grupos de peso eleitoral, muitas vezes, impedem os governos de adotar posturas mais coerentes com as regras do comércio mundial. Os fabricantes brasileiros de aço conhecem muito bem essas restrições impostas pela siderurgia norte-americana. E a maioria dos países da Europa fecha suas portas à produção agropecuária às economias em desenvolvimento. Para evitar a retaliação, os EUA poderiam, por exemplo, retirar limitações às importações de carne, suco de laranja e etanol brasileiros. A tentativa de evitar a aplicação das sanções justificaram-se, não apenas pela tradição da diplomacia brasileira de buscar acordos antes de qualquer medida mais contundente, como pelo fato de que o procedimento não deixa de ser um golpe nas relações comerciais do Brasil com a maior economia do planeta. Há sempre o risco de um desgaste que pode ser mais prejudicial aos interesses brasileiros do que os subsídios que deram origem à disputa.
A lista publicada não encerra o assunto. Ela representa impacto de US$ 560 milhões e deverá entrar em vigor em 30 dias. Os restantes US$ 270 milhões ao quais o Brasil tem direito farão parte de uma outra lista, ainda em preparação, não mais de mercadorias, mas de quebra de patentes e direitos, algo mais caro aos norte-americanos. Até mesmo o calendário de publicação das retaliações demonstra que o governo brasileiro ainda não desistiu de um acordo. O Brasil, acertadamente, continua aberto à negociação. Mas a publicação da lista sinaliza que a diplomacia brasileira também não perdeu de vista um limite: a não aplicação das sanções colocaria em risco a credibilidade da própria OMC, foro que o Brasil ajudou a construir exatamente para ter um campo neutro em que pode negociar em igualdade. Ou seja, sem um acordo razoável,aaplicação das retaliações é inevitável.
Jornalismo e cidadania
Orlando Ângelo Professor e jornalista
Diariamente, os veículos de comunicação recebem um grande número de denúncias vindas de vários segmentos da sociedade. As reclamações vão desde um esgoto estourado na rua, passando pela ausência de médico nos postos de saúde, até a falta de calçamento em um bairro. É a comunidade buscando exercer sua cidadania através da mídia.
É comum ouvir pessoas afirmando que já procuraram determinados setores oficiais para a solução de problemas, sem que tenham sido atendidas e por isso procuram a imprensa para denunciar. Entendem que só assim terão seus pleitos atendidos. Os programas de radiojornalismo são os preferidos, graças ao imediatismo com que atingem o público.
Essa forma da comunidade ter seus direitos respeitados termina desvirtuando atribuições. De um lado, os dirigentes de instituições públicas só se preocupam em solucionar os problemas da sociedade quando são denunciados pelos meios de comunicação. Por outro, a imprensa e os jornalistas terminam atribuindo a si umafunção executiva que pertence aos poderes públicos.
Quanto mais as autoridades se afastam de suas obrigações, mais espaço da mídia é ocupado pela comunidade, causando uma verdadeira inversão de competências. Assim, os programas jornalísticos perdem, em parte, suas características e a informação jornalística vai sendo substituída pela utilidade pública, desvirtuando as funções de uma e de outra.
Uma constatação disso está no fato de que praticamente todas as repartições públicas possuem um setor para o acompanhamento diário das informações e denúncias veiculadas pelos meios de comunicação. São os chamados sistemas de monitoramento de mídia (os famosos "rádio escuta", clipagem impressa e eletrônica). Até aí nenhuma novidade. Mas esses setores estão sendo supervalorizados, porque as autoridades estão mais preocupadas em atender aos jornalistas do que em solucionar os problemas da população, sem intermediários.
Essa prática na busca de solução para os problemas cotidianos da sociedade não é a mais eficiente e nem a mais correta, por conta dos desvirtuamentos gerados pelas opções político partidárias, tanto de denunciantes quanto de profissionais da imprensa e das empresas para as quais trabalham.
Apesar de tudo, há um aspecto positivo: a população está consciente de que é preciso exercer sua cidadania e, para isso, utiliza os meios que dispõe. É claro que os órgãos de comunicação também têm a função de denunciar, mas, ultimamente, estão suprindo um espaço de responsabilidade dos poderes públicos. Pela frequência com que isso vem acontecendo, pode-se deduzir que o povo está depositando mais confiança nos meios de comunicação do que nos organismos governamentais.
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