Cultura Edição de sexta-feira, 12 de março de 2010
Compositor é considerado a voz dos excluídos
A obra de Adoniran Barbosa é densa, profunda e fascina pesquisadores, o que pode ser comprovado na extensa bibliografia dedicada ao compositor paulista. O livro Adoniran Barbosa, o poeta da cidade (Ateliê Editorial), do historiador Francisco Rocha, por exemplo, vale-se das canções para pensar o processo de modernização do Brasil, o lugar da cultura popular nesse contexto, a urbanização e o crescimento de São Paulo.
Rocha lembra que Adoniran Barbosa viveu no momento em que São Paulo se tornava a grande metrópole brasileira. "A matéria-prima dele é a tentativa de narrar a expansão urbana na perspectiva dos excluídos", observa o escritor. "Os personagens são o homem comum, o trabalhador informal, o migrante que está chegando à cidade, gente que desenvolve as mais variadas estratégias para sobreviver. São pessoas das quais a história oficial nada fala. Essas biografias ficaram no anonimato, no silêncio", acrescenta Francisco Rocha.
Além da crítica social e do tom dramático, Adoniran "faz a ponte entre o rádio e arua". Na opinião de Rocha, esse tom só foi ouvido com clareza nas gravações dos anos 1970. Ele cita a versão de Elis Regina para Saudosa maloca - cantando os dramas vividos pelo povo, a intérprete reafirmou a resistência à ditadura militar.
"Adoniran tem antena para captar vozes e dramas do homem comum no momento da apologia ao progresso, que nos versos dele, e fazendo crítica a esse discurso, torna-se 'progréssio'", explica Rocha. A linguagem e o português incorreto remetem a uma fonte cara à arte do paulista: a cultura oral. Por outro lado, ressaltam a resistência, com tom crítico à cultura oficial.
"Certa vez, ele disse que era preciso falar errado de modo certo", lembra Francisco Rocha. A prática valeu censura ao artista. Tiro ao Álvaro, de acordo com o músico Sérgio Rosa, do grupo Demônios da Garoa, era considerado pela ditadura militar mau exemplo para os brasileiros. "A autenticidade e a força poética dessa arte se comunicam fortemente", afirma.
"Adoniran Barbosa é muito original, diferente de todos. Ele é o cronista do trágico e do humor puro. Criou músicas lindas, com crítica política e social forte, que tocam as pessoas. É samba de São Paulo, tristonho e de lamento", afirma a cantora Beth Carvalho. "Trem das onze é um hino, mas o clássico é Saudosa maloca. Desde criança essa música me faz chorar. Quando canto, me dá um nó na garganta", afirma a carioca. No CD Beth canta o samba de São Paulo, ela gravou Iracema, Trem das onze, Saudosa maloca e Despejo na favela.
Para homenagear o compositor será lançado este ano o disco Adoniran Barbosa - 100 anos. O trabalho reúne intérpretes como Maria Alcina, Virgínia Rosa, Cristina Buarque, Oswaldinho da Cuíca, Márcia de Castro e Patty Asher. A Rede Globo já gravou episódio da série Por toda minha vida sobre a vida do compositor, interpretado por Marcelo Airoldi. A data da estreia ainda não foi definida.
Não é difícil encontrar discos do paulista no mercado. Uma boa antologia, a preços populares, infelizmente em edição sem letras das canções e informações sobre as gravações, é Adoniran Barbosa - dois CDs/Bis (EMI).
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