Cultura Edição de sexta-feira, 12 de março de 2010
O poeta do "progréssio"
Brasil comemora o centenário de nascimento de Adoniran Barbosa, autor de Trem das onze
Walter Sebastião
O cantor da integridade, um sambista diferente, o poeta da cidade. Assim é Adoniran Barbosa (1910-1982), autor de Trem das onze e de Saudosa maloca, cujo centenário de nascimento é comemorado este ano. Filho de imigrantes italianos pobres, aos 10 anos o artista teve a idade alterada para 12 na certidão, pois precisava trabalhar. Carregador de marmita, pintor, faxineiro e garçom, escolheu a carreira de ator. Recusado nos palcos, brilhou no rádio interpretando tipos populares.
Adoniran Barbosa se destacou por criar sambas inspirados no cotidiano das pessoas simples em São Paulo Foto: cuoretriveneto.it/ReproduçãoInternet/210807
O sucesso radiofônico levou à criação de sambas, ora trágicos ora cômicos. Eram tempos de "progréssio" da metrópole e seus versos evocam o falar de camelôs, engraxates, operários e favelados. Daqueles sambas nasceu arte única, censurada durante a ditadura militar. "Por meio das músicas de Adoniran Barbosa o Brasil começou a conhecer São Paulo. Ele é o grande cronista da cidade", afirma o escritor e pesquisador Celso de Campos Jr., para quem o artista está para São Paulo como Noel Rosa para o Rio de Janeiro e Dorival Caymmi para a Bahia.
Celso é autor de Adoniran Barbosa, uma biografia (Globo), elogiado volume de 680 páginas, com direito a scripts do programa radiofônico História das malocas e precioso material inédito. "As canções de Adoniran se universalizaram devido a seu forte caráter humano - ele é emoção - e por falar do povo brasileiro", afirma o biógrafo. Nessas canções está o essencial da cultura de São Paulo: as migrações que construíram a metrópole.
"A arte de Adoniran tem estilo único", elogia Celso de Campos Jr. A mágica da enorme empatia que ele desperta se deve à soma de melodias sintéticas, "aparentemente simples" e de fácil memorização, com versos cuja peculiaridade é evocar o modo de falar do povo, "que ele coletou direto da fonte, nas ruas". O escritor explica que esse cancioneiro eterniza a boemia do Centro paulistano nos anos 1950 e 1960, quando o local era reduto de artistas.
Adoniran circulava por todas as classes sociais. A referência inicial de seu trabalho foi o samba carioca dos anos 1930 (cantavacomposições de Ismael Silva e de Noel Rosa em programas de calouros). Também o seduzia o caráter narrativo do tango. Tais elementos foram burilados pelo compositor e transportados para sua linguagem pessoal.
Celso de Campos Jr. chama a atenção para a contribuição fundamental do produtor radiofônico e escritor Oswaldo Moles para a estética de Adoniran Barbosa. Foi Moles quem chamou o parceiro para participar do programa Histórias das malocas, inspirado na música Saudosa maloca. "Ele percebeu a veia cômica de Adoniran como observador do cotidiano", conta o biógrafo.
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