Colunas Edição de sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Opinião
Caminhada sem destino
Dizem que, nos idos da ditadura militar de 1964, o presidente ameaçou revogar a lei da gravidade se fosse contrariado. A história circulou país afora como piada. E não poderia ser entendida de outra forma. É possível que o mesmo esteja ocorrendo na Venezuela. Apesar do fracasso das aventuras - experimentadas em todos os continentes - de ignorar a lei da oferta e da procura, Hugo Chávez decidiu revivê-la. Na semana passada, anunciou a desvalorização do bolívar. Para importar alimentos e remédios, depreciou a moeda em 17,3%. Para os demais itens, 50%. No mercado interno, porém, um dólar vale sete bolívares.
A medida encarece os produtos importados. Como produz praticamente só o petróleo, o país depende de compras externas para abastecer o mercado interno. De comida a eletrodomésticos, passando por calçados e vestuário, tudo vem de fora. A população, ao tomar conhecimento da medida, fez o previsível. Correu às compras para aproveitar os preços antigos. Os comerciantes também não fugiram à regra. Remarcaram o valor das mercadorias. Chávez seguiu o script populista. Chamou os militares para impedir reajustes.
Mais: conclamou a população a desempenhar o papel de fiscais do governo. Em bom português: denunciar os especuladores para que a Guarda Nacional, junto com o povo, use a força e os recoloque nos trilhos. No dia seguinte à medida, pelo menos 70 estabelecimentos foram fechados sob a acusação de terem elevado os preços. No mesmo dia, uma multidão carregava aparelhos de som e televisores pelas ruas. As gôndolas de supermercados esvaziaram-se em horas.
Trata-se da reprise de velho e gasto filme. O Brasil o viu durante a vigência do fracassado Plano Cruzado. Os fiscais do Sarney denunciavam os "abusos" de comerciantes. Candidatos caçavam boi no pasto. Sem equilíbrio de oferta e procura, o congelamento de preços se encarregou de cobrar a fatura - desabastecimento e descontrole da inflação.
Caracas amarga a maior inflação da América Latina. Embora manipule os índices, o governo anuncia que a inflação chegou a 25% em 2009. Analistas falam em até 38%. A tendência é se agravar. A maxidesvalorização, além de alimentar o descontrole dos preços, deve estimular o mercado paralelo e a corrupção. Não só. A escassez de energia obrigou as autoridades a tomar iniciativa bastante impopular - o racionamento do insumo, indispensável à normalidade da vida de pessoas físicas e jurídicas. Hugo Chávez, assim, alia fatores que implodem a popularidade de qualquer governo. De um lado, a inflação. De outro, o desabastecimento. O epílogo não trará surpresas.
Clique na imagem para
vê-la maior
Edição de sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Edições anteriores
Selecione a data do
Diario que você
deseja visualizar
Copyright
- DiariodaBorborema.com.br | todos os direitos reservados. É proibida
a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização |
espacodoleitor.pb@diariosassociados.com.br