Mundo Edição de sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Reconstrução interrompida
Trabalho de reestruturação do Haiti corre sérios riscos após catástrofe sem precedentes
Um frágil processo de reconstrução interrompido. Um enorme desafio pela frente. Esse é o sentimento que permeia os especialistas e voluntários que trabalham nos campos de busca do Haiti. O país mais pobre das Américas passava por um lento movimento de recuperação, que, agora, após o tremor mais forte em 200 anos da ilha, retrocede e amplia as dificuldades de reorganização da população.
"Não é apenas uma destruição sem precedentes. O terremoto paralisou bruscamente um bom começo", lamentou Bob Perito, coordenador dos programas de ajuda do Instituto Americano pela Paz (USIP). Segundo Perito, os haitianos sentiam que as coisas estavam melhorando depois de décadas de ditadura, instabilidade e violência política. "A economia começava a registrar um pouco de crescimento, da ordem de 1 a 2% por ano. Os investimentos chegavam. Uma cadeia hoteleira decidiu construir na ilha. Havia também investimentos no setor têxtil", explicou.
Por ora, a tragédia vai afetar a organização das eleições legislativas de fevereiro, e até mesmo a presidencial de 2011, comícios que já prometiam ser difíceis em um clima político sempre a ponto de pegar fogo. "O Haiti é o país mais pobre da América. Isso implica que a gravidade da situação a longo prazo, como consequência do terremoto, dependerá muito diretamente do nível da destruição da infraestrutura", explicou Phil Neiburg, analista de desastres naturais do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS), de Washington.
Outra dificuldade latente são os riscos de um desastre sanitário. Com a pouca infraestrutura que existia completamente destruída, a cidade de Porto Príncipe virou um campo fértil para a proliferação de doenças. "Quanto mais rápido tivermos abrigos, água e alimentos, menos doenças teremos", ressaltou Brigitte Vasset, da organização Médicos sem Fronteiras. Um dos principais riscos é o da Síndrome do esmagamento. Trata-se de uma compressão, por escombros, de "grandes massas musculares", principalmente os joelhos, o que faz com que no momento em que o ferido é retirado dosescombros, todas as toxinas acumuladas sejam liberadas no organismo e afetem os rins. Esse problema pode gerar um quadro de insuficiência renal aguda.
Diarréia, disenteria, malária, cólera, tuberculose e outras infecções respiratórias também fazem parte do rol de doenças que podem se desenvolver, devido ao acidente, principalmente pela ausência de água potável. "Após uma catástrofe natural, os corpos não transmitem doenças", assegurou Vasset. "Não é a catástrofe que vai gerar epidemias, são as concentrações de pessoas, particularmente em um país onde o sistema de saúde é fraco."
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