Cultura Edição de quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A crueldade de Lars Von Trier
Anticristo, nova obra do cineasta dinarmaquês, tem chocado plateias com cenas de violência e sexo explícito
André Dib especial para o DB
Sexo explícito, tortura e mutilação genital. Esta seria uma síntese fria e direta para descrever as cenas mais chocantes de Anticristo (Antichrist, Dinamarca, 2009), a nova obra de Lars Von Trier. Em termos de gênero cinematográfico, trata-se de um filme de horror, daqueles que exploram o que há de estranho e imprevisível no comportamento humano. A carne está lá, profanada, mas não como nas produções caça-níqueis do cinema comercial. Pois aqui, nada é gratuito. Teologia, misoginia e psicologia formam a base pela qual os conceitos do filme se desdobram.
Filme abusa do chocante para contar a história de um casal que não consegue superar a perda do filho Foto: Zentropa Entertainments/Divulgação
Anticristo está em cartaz no Brasil desde agosto e, em breve, deve estrear no Cine Multiplex do Shopping Boulevard. É preciso estômago para enfrentar os 104 minutos de projeção. Apesar de há tempos ter abandonado o Dogma, doutrina audiovisual que nos anos 90 projetou Trier e seus colegas dinamarqueses para o mundo, Anticristo guarda vários pontos em comum com o cinema esquemático que o diretor vem praticando neste milênio. A estrutura em capítulos é um deles. Aqui são quatro, mais um prólogo e epílogo em preto e branco, uma homenagem ao cineasta russo Andrei Tarkovisky.
Arquetípicos, os protagonistas não são chamados pelo nome em momento algum, sendo descritos nos créditos apenas como "Ele" (Willem Dafoe) e "Ela" (Charlotte Gainsbourg). O cenário principal é o Éden, uma floresta nórdica úmida e escura, é um elemento vivo, que aos poucos assume a função de externar o estado de espírito da mulher. Seus habitantes, um cervo, uma raposa e um corvo, são chamados pela mulher de "os três mendigos", e representam "a dor", "o luto" e "o desespero", lugares por onde os personagens passam gradativamente, entre sentimentos de culpa e desejo sexual.
Inicialmente, o sofrimento surge após uma perda irreparável do filho do casal e é combatido com remédios. Convicto de que as pílulas a impedem de encarar a dor e assim superá-la, o marido (ele é psicanalista) se empenha em curar a esposa. Sua postura arrogante e superior travestida de benevolência remete a Dogville, onde outro personagem masculino e "bem intencionado" vira alvo do revide feminino. Só que, em Anticristo, o nível de crueldade é maior do que as possibilidades de uma metralhadora em punho. Principalmente quando é aberta a caixa de ferramentas.
Muita gente pode não gostar do que vem na sequência. No entanto, o mesmo choque que convida a levantar da cadeira e dar as costas pode ser a oportunidade de se entregar a uma narrativa que instiga reflexões sobre lugares obscuros da natureza humana. E isso inclui um dos atos sexuais mais mórbidos da história do cinema. Como de praxe na filmografia de Trier, cada elemento visual e sonoro, cada centímetro da tela se submete a uma obsessão manipulatória incomum e doentia. É difícil saber que espíritos o assombram, mas é certo que são tenebrosos e estão longe de ser exorcizados.
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