Colunas Edição de quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Opinião
Os debates e as palavras
Fala-se muito em liturgia do cargo. Trata-se de comportamento cerimonoso que certos postos impõem aos ocupantes. Não é por acaso que o vocábulo liturgia tem raízes nas cerimônias religiosas. No universo eclesiástico, exige-se a obediência a ritual estabelecido para o complexo das celebrações. Em razão do código de conduta rígido, não se admite, por exemplo, que um padre ofereça a eucaristia sem a solenidade que o momento requer. Ou que o professor faça gestos obscenos aos alunos em sala de aula. Ou que o presidente da república apareça em público vestindo roupas íntimas.
A sociedade não abre mão do cumprimento dos pactos protocolares. Daí a indignação provocada pelo bate-boca de quinta-feira no plenário do Senado Federal. De um lado, o peessedebista Tasso Jereissati (CE). De outro, o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL). A altercação se caracterizou pela sucessão de acusações, vozes alteradas e vocabulário de baixo calão. Não faltaram gestos agressivos nem palavrões. "Não aponte esse dedo sujo para cima de mim", gritou o representante cearense. "Coronel cangaceiro", respondeu o outro aos berros.
A tensão chegou ao ápice e a palavras indizíveis no contexto. Foi necessário desligar os microfones. Transmitido ao vivo pelas tevês, pelas rádios e pela internet, repetido várias vezes ao longo do dia do pega e dos dias seguintes, não constitui exagero afirmar que a maior parte dos brasileiros tomou conhecimento da confrontação verbal que, por pouco, não chegou à agressão física. A cena de botequim de quinta categoria não atinge apenas os protagonistas. Fere de morte o Senado, já cambaleante sob o peso das denúncias que se sucedem há quatro meses.
A matéria-prima do Congresso é a língua. Daí chamar-se a instituição de parlamento. Apresentam-se projetos, defendem-se teses, argumenta-se pró ou contra com o uso de palavras. O léxico português ultrapassa os 400 mil vocábulos. É suficientemente rico para exprimir ideias e emoções. E indiscutivelmente capaz de traduzir as diferentes nuanças do falante. Ignorar a capacidade deexpressão do idioma não condiz com a função de deputados e senadores. Um e outro poderiam ter transmitido a mensagem que se dispunham transmitir com substantivos, adjetivos e verbos respeitosos, conforme imposto pela liturgia do cargo.
Tasso Jereissati e Renan Calheiros devem desculpas à nação. O povo os elegeu para representá-lo na busca de soluções para os graves problemas nacionais. Desmoralizar a instituição não estava na plataforma dos candidatos que ora se digladiam. A proposta apresentada ao eleitor foi outra, com certeza plena de realizações em prol do bem-estar dos 180 milhões de brasileiros.
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