Cultura Edição de quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Arte contra a violência social
Teatrarte encena peça baseada em ataque sofrido por 60 famílias de trabalhadores sem-terra em Pocinhos
Oziella Inocêncio // oziellalima.pb@diariosassociados.com.br
No dia 1° de maio deste ano, 60 famílias de trabalhadores rurais sem-terra acampadas à margem da Fazenda Cabeça de Boi, em Pocinhos, viveram uma noite de terror. As famílias acampavam no intuito de pressionar o governo federal a agilizar o processo de assentamento. Durante a madrugada, foram surpreendidas por um grupo de homens encapuzados que dispararam inúmeras vezes contra elas. A maioria dos trabalhadores conseguiu escapar dos disparos entrando na mata fechada. Na ocasião, sete deles foram capturados e violentamente torturados. Seus corpos foram molhados com gasolina e eles ficaram horas sob a ameaça de serem incendiados vivos.
Os atores do Teatrarte se baseiam no Teatro do Oprimido para apresentar situações reais, retiradas dos noticiários, e que afetam a sociedade Foto: Junot Lacet/DB/D.A Press
O acontecido serviu de mote para Terra e sangue, peça do grupo Teatrarte de Campina Grande, apresentada na manhã de ontem, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB). De acordo com os integrantes do grupo, diversas entrevistas foram realizadas com os integrantes do MST que presenciaram o fato,para a elaboração do texto do espetáculo.
Composto por estudantes universitários, o Teatrarte conta com dez integrantes e nasceu há pouco mais de dois anos, tendo como prerrogativa o Teatro do Oprimido, conforme acrescentou um dos coordenadores, Marcos Pablo Martins Almeida. Pablo salientou que esta vertente teatral surgiu a partir do dramaturgo, diretor e teórico de teatro Augusto Boal, com o propósito de lutar contra todas as formas de opressão, desenvolvendo uma arte de cunho político, libertário e transformador.
Para o coordenador, o Teatro do Oprimido pretende modificar a essência do público, tornando-o também protagonista da dramaticidade vislumbrada. Marcos Pablo revelou que a poética da vertente está organizada em diferentes formas/técnicas de ações dramáticas, acrescentando que para Boal o teatro é ação. "Terra e sangue insere-se justamente na atividade Teatro-Jornal efetuada por Boal no Teatro de Arena, em São Paulo, no período anterior a sua saída do Brasil por força da ditadura daquele momento",explicou. O coordenador contou que esta técnica objetiva transmutar quaisquer notícias de jornal ou qualquer outro material sem propósito dramático, em cenas ou ações teatrais.
Pela cidade
O Teatrarte já se apresentou em diversos pontos de Campina Grande, entre eles figuram as praças Clementino Procópio e da Bandeira, o Parque do Povo, a UFCG e a UEPB. Os ensaios acontecem periodicamente em vários pontos da cidade. Pablo revelou que o grupo não recebe nenhuma espécie de incentivo para as apresentações. "Fazemos por acreditar naquilo que defendemos", disse. Mais informações sobre o Teatrarte podem ser obtidas através do telefone (83) 8853-7565. A apresentação do grupo aconteceu dentro da Semana do Estudante, organizada através da Associação dos Estudantes Secundaristas da Paraíba (Aesp) e outras entidades.
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